sexta-feira, junho 19, 2009

SALA DE ESPERA



O Gil é um desses mangolés que conosco foi à diáspora e pela graça de Deus - foi mesmo graça de Deus- dois anos depois de ser chumbado por aqueles testes da ESSO, e quando já estava a lutar pela vida na banda, recebeu um estranho e-mail para contratação urgente… depois de seis meses de ESSO um novo contrato com outra petrolífera americana – não lembro o nome- e já la está há quase dois anos. Tem vida Mulata e viaja meio mundo, quando nos encontramos é só gargalha: eu a Methamorfose, ele o Ambulante. De entre outras histórias, das que ele conta constam as do luxo das salas de espera mundo afora, salas de espera que deixaram de ser um local de sofás tranqüilos e passaram a ser verdadeiros lugares de conforto e luxo…aqui estou eu, em uma sala de espera, com conforto e luxo sim senhores! - valeu-me Deus, ao não fechar meu bolso aos Usd 200 dólares a mais que me deram direito à classe executiva, de outra forma, estaria nos bancos metálicos e frios da classe do povão - também sou povo, mas…- agüentando o inverno do sul da áfrica que já se faz sentir! Afinal a bendita TAAG esta com um atraso de quase 06 horas. Mas não quero falar do atraso da TAAG e muito menos do conforto da sala de espera – o atraso é só esperar, o conforto é só curtir, quero mesmo é falar das apetitosas histórias que vão tendo a sala de espera como palco-cenário, ainda mais com mangolés…aqui reina o cômico e o dramático: perto de mim uma professora universitária, que trocou o terninho e o sapato alto por uma calça safaresca, uma jaqueta jeans e um boné cangurú – qualquer semelhança comigo é mera coincidência. Depois de dar um forte aperto de mão a um velho professor – ou professor velho - das microeconomias, o acompanhante do tal professor, pergunta sem discrição nenhuma:- oh mano, mas essa assim é doutora mesmo pá? Sem esperar resposta, desgasta o seu fastidioso inglês para conseguir o número de telefone da sul africana que profissionalmente atende aos desesperados passageiros, acto contínuo, abre a mala de mão e oferece um perfume: Meu Deus!! – penso - na banda já alguém ficou sem perfume!! Ficou Kibuzento - como diria o Djonson do Rangel – do Djonson falo outro dia… Enquanto tento concentrar-me na leitura da aula de amanhã, uma voz irritante me tira a paz, curiosa saio do meu esconderijo e vejo dois patrícios - iguais aqueles da música não publicada do Yanick- discutindo calorosamente sobre licenças do IPGUL – ai meu Deus como eu que quero uma licença para minha terrinha no Benfica!! – tenho sim uns m²s e daí?? – retiro deles o meu olhar e volto concentrar-me no texto, mas eles insistem em falar tão alto, como se todos nós fizessemos parte da conversa: tamos com fome pá, ta todo mundo aqui na sala a reclamare pa, manda-nos comida pa-, quando fores lá ao Sambila, na minha administração vas ver pá! ahh, o tal parece ser ou foi administrador do sambila… - te ligaram da banda? Epa tenho romingui pah, o estado paga pah! – e seguiram conversando em plena exibição de poder, coisas do nosso povo!… Sem dúvidas: Angola e Moçambique nisso se parecem: no Jet-set nacional, que o diga Mia Couto: boas maneiras? Te-las nem pensar, o bom estilo é ser agressivo, grosseiro, prepotente... Até o tipo que pareceia calmo e concentrado na J´dafrique também transportou para o país dos outros os ares de chefe, de tipo mandão, que olha o mundo inteiro com superioridade de patrão: só tem este whisky?? Dá lá um mais velho pa, isto tá pago! Tomara que o sul africano não entenda nennhum português!, ... coisas da terra... hora de partir, penso então no gilberto e como seriam as horas na sala de espera sem o nosso Jet-Set nacional...

1 comentário:

MESU MA JIKUKA disse...

Que linda criação e descrição do angolano. Com esse caminhar...